I CONCURSO PETROBRAS CASABLOCO DE ARTES CARNAVALESCAS
Na terça gorda que precede as cinzas, o corpo idoso de Dodô sucumbiu sobre o lamaçal espesso do mangue, castigado pela folia insone e pelo sol equatorial que fervia os Cão. A gente endiabrada vestida de lama pisoteava e tropeçava na massa inerte e monocromática de seus membros, confundidos com raiz e lixo. Era o último carnaval dos Cão, o último bloco popular da Redinha. O último ano do mangue.
Dominica não lembrava quase nada da mãe e nada do pai, mas tinha fresca a memória da primeira vez que se melou na lama do mangue e virou Cão. Já fazia tempo que não era filha de ninguém, neta de ninguém, era só uma criança vivendo da bondade do povo e da terra, indo pra lá e pra cá com os outros meninos. Dormiam na praia, em barraquinhas de palha que faziam com as folhas caídas dos coqueiros no cemitério morto dos ingleses ou, quando chovia, se esgueiravam para dentro do Clube. Nessa época não tinha criança de rua, só criança sem casa, e Dodô sabia viver daquele jeito. Um dia vinha depois do outro, sempre tinha o que comer, sempre tinha onde brincar e com quem. O povo era aliado das crianças. O grupinho de órfãos da Redinha saia catando siri, camarão e fruta, aprendia a pescar e trançar rede que nem os indígenas, tomava banho de mar ou dividia o rio doce com os cavalos e jumentos. No verão, iam conseguir umas moedas com as multidões despejadas dos barcos que atravessavam o Potengi, vendendo uma coisa ou outra, para depois gastar em bagana no mercadinho da curva.
Desde o sumiço de Cajú, a vida tinha se tornado muito difícil para Dodô, sobretudo porque não sobrara ninguém que lhe agarrasse ao mundo. Devia a ela seu nome, sua profissão, e a pequena habitação em que morava, no primeiro andar de uma esquina comercial. Muita coisa havia mudado desde que elas duas tinham se tornado melhores amigas, quando se descobriram, numa manhã friorenta, enquanto ajudavam a empurrar uma jangada pra dentro d’água. É curioso que tenha sido assim também quando se viram pela última vez.
Afundada na Lama, dormente de cachaça e tristeza, Dodô sonhava o passado cálido de sua infância, quando ela e os outros meninos sem casa vagavam como um só organismo no território da Redinha. Antes do lixo, da velhice e da violência. No entanto, tropeçava aqui e ali nos gélidos sinais de um futuro alcançado, memórias sem sentido para a criança que sonhava, ásperos marcadores da vida sentenciada de Dodô.
Tinha sido Cajú quem primeiro notara nela a menina. Dodô vivia como criança, indiferenciada das demais, sem nome nem filiação alguma senão com a praia. Quando, naquela manhã cinzenta, Cajú perguntou seu nome, Dodô não soube o que dizer e ficou olhando para a outra como quem espera que complete a frase, com os dedos entrelaçados por trás da cabeça e o olhar cativado.
“Mainha disse que tu é fí de das Dores, é?” e Dodô fez que sim com a cabeça, mas não tinha certeza se das Dores era, de fato, sua mãe. A lembrança que tinha dessa mulher era escurecida e manchada, uma silhueta perto de um fogão a lenha, contra a luz de uma janela numa das últimas casas de taipa da região. A voz dela menos nítida que o barulho do mar.
“Povo diz que ela foi viver com um homi lá de Natal, foi?” E Dodô, que nem Dodô era, não sabia dizer, mas podia ser que fosse. E a mãe de Cajú gritou de longe chamando “Daguía! Booora!” e Cajú saiu correndo fazendo xau pra Dodô.
O mangue nesse tempo todo de Redinha nunca tinha enchido de lixo. Passou estrada, criou comércio, fizeram a ponte e o mangue era sempre limpo. O povo respeitava o mangue. Aí de um ano pra cá começou a aparecer tudo que é tipo de porcaria na Lama. Máquina velha, fralda descartável, saco de todo tamanho, entulho, tudo essas coisas que o mangue não come. Dodô sabia que não tinha nada a ver uma coisa com a outra, mas a hecatombe do mangue havia iniciado justo no carnaval que Cajú não voltou do mar, e Cajú era a única pessoa que iria ajudá-la a salvar o mangue. Sozinha, com um corpo vencido pelos anos, não conseguia frear a conversão do mangue em despejo. Ainda assim, ela tentou. Durante o um ano inteiro, persistiu na tarefa de salvar a lama que lhe deu lugar no mundo, mas foi vencida por forças maiores que ela. Caminhões cortavam as madrugadas para despejar aquela sujeira indigesta no chão sagrado das duas amigas, mas os protestos de Dodô não encontravam ouvidos, suas denúncias não moviam nada.
No primeiro Carnaval que passaram juntas, Cajú mostrou para Dodô como virar Cão. Foi uma das inúmeras coisas que Dodô aprendeu com Cajú naquele tempo vívido. Todos os dias elas se encontravam no mesmo lugar para empurrar a Praia Bela, jangada que Cajú herdaria do pai. Às vezes iam junto na embarcação para verem os pescadores recolherem as redes cheias de peixe e separavam as gingas num cestinho que a mãe de Cajú mandava. Outras, iam ralar coco, tratar camarão ou peneirar a goma da tapioca pra sair vendendo aperitivo na praia ou pelas ruas do bairro, e depois Cajú ensinava à amiga coisas que tinha aprendido na escola. A vida era boa, simples, e Dodô, que agora tinha nome seu, vivia pregada com Cajú em todo canto. Passados tantos anos, ela ainda se perguntava como a amiga teria decifrado sua dupla natureza, de mulher e de Cão, que nem ela mesma enxergava. Porque a teria escolhido e lhe oferecido um nome tão estranho e lindo como Dominica?
As dores no corpo de Dodô cresciam com o avanço da poluição do mangue, até que desistiu do salvamento impossível. O asseio do mundo apodreceu de vez as sujidades naturais do manguezal. Para muitos moradores, a notícia do novo condomínio tinha sido um alento e uma esperança, mas não para Dodô.
A televisão dizia ser um grande avanço em termos ambientais, que o mangue estava condenado e desvalorizava a região. O novo condomínio Verde Ribeirinho iria trazer os conceitos mais modernos em tecnologia sustentável com tratamento de água e esgoto, reciclagem, energia renovável, grandes porções de área verde e revitalizaria a economia da região, gerando emprego e renda para a população da Redinha, tão carente de avanços. A Redinha era conhecida, historicamente, como um bairro preguiçoso, avesso ao progresso — dizia o comentador no jornal publicitário do meio dia —, devido à noção de que era um lugar idílico, apenas para veraneio. “Ano que vem isso vai mudar”. E a velha Dodô, deitada no sofá, assistia a notícia com as janelas fechadas, enfastiada e com dores pelo corpo inteiro e alma adentro. Cansada demais pra chorar. Derrotada até pra cuspir.
O Carnaval era a única época do ano em que as duas não trabalhavam. Cajú jamais saia para pescar e Dodô esquecia da caixa de aperitivos — que era quase uma extensão do seu corpo no resto do ano. A praia deixava de ser labor, cotidiano, e virava outra coisa nesses dias, como se um mundo novo se metesse por dentro dos poros da Redinha. Em todo e cada um dia de carnaval, as duas deslizavam os corpos por um itinerário caótico na terra inédita e estranha do velho bairro, mas nenhum era mais especial que a terça com sua jubilosa sujeira matinal e seus amores noturnos e gulosos.
Cajú dizia que Dodô tinha nascido junto com os Cão e que era Cão de nascença. Quando o bloco fez 10 anos, ela parecia ter a mesma idade e foi justo nesse carnaval que se melou pela primeira vez. O bloco era não mais que poucas dezenas de pessoas que faziam seus festejos pelo mangue mesmo, catando camarão e assando em pequenas fogueiras aqui e ali pra tirar o amargor da cachaça Olho D’água. Depois, se vestiam de lama e saiam fazendo bagunça no coração da Redinha. O pai de Cajú foi quem a ensinou como fazia para virar cão e ela fez o mesmo com Dodô. Ajudou a passar lama nas costas e nos braços, pegou salsa-da-praia e mostrou como colocar por dentro da bermuda e fazer de rabo, arrancou uns charutos-do-mangue pra usar como chifre, tudo naquele marrom acinzentado, escuro e lamacento, imersas no cheiro de matéria orgânica e umidade entranhadas na lama, rindo até perder o fôlego.
Quanto tempo fazia que não riam juntas? Naquele alvorecer de carnaval, o penúltimo antes do fim do mangue, Cajú decidiu sair para pescar. Era a primeira vez que quebrava a tradição de cinquenta anos daquela amizade. Mas Dodô respeitava em silêncio a decisão de Cajú e a ajudou, como sempre, a empurrar sua jangada para o mar. Do trapiche, olhando a Praia Bela sumir na curva do horizonte, Dodô deixou escorrerem lágrimas doloridas por não conseguir ajudar a amiga e por, finalmente, haver um segredo entre elas. Chorava ingenuamente, sem saber que era a última vez que via Cajú viva.
Era a mesma lama esta que, no presente, engolia Dodô e aquela que, cinquenta anos antes, a batizava como Cão. Ali mesmo, melada e irreconhecível como agora, experimentou um intenso desejo de sujar o mundo inteiro. Os postes, os muros, o chão, as garrafas na quitanda e, especialmente, os veranistas pálidos que desembarcavam no paraíso de ano em ano para usufruir da beleza e placidez da praia. Os Cão iam levar o mangue de volta ao centro da Redinha e Dodô era um deles. O manguezal, que era nascedouro de todas as delícias, cores e bichos do lugar, reinaria outra vez sobre a higiene sóbria da Redinha das elites.
Os pescadores da Praia Bela, sentados ao redor de uma fogueirinha, com os pés de lama, chamaram Dodô para experimentar camarão assado com cachaça. Cajú também queria, mas “não era coisa pra menina”, disseram, e Dodô, calada, se aproveitou do engano deles.
Do copinho de madeira porosa que ela trouxe pra perto da boca subia um cheiro acre que fazia arder por dentro do rosto, e o sabor, pensava, seria muito pior. Mas, nela, a animação sempre foi maior que o medo, e num impulso rápido, verteu a dose inteira de uma vez. Sentiu deslizar o líquido para dentro como engolisse um gato zanho, arranhando as paredes da garganta e se contorcendo dentro da barriga. Então nada além dessa dor existia no mundo e, quando deu por si, estava com o rosto molhado de lágrimas. Seus ouvidos aos poucos discerniu o riso dos pescadores, que tinham gosto em ver, sob nova perspectiva, o que um dia também passaram. Um deles lhe ofereceu um espeto com dois camarões graúdos, imensos e cor de laranja, que Dodô abocanhou com perna e tudo e encheu seu corpo de um prazer inaugural, uma delícia completamente nova. Ainda escorriam as últimas lágrimas de seus olhos quando abriu a boca para pedir outra dose de cachaça.
Cajú dizia sempre que existiam muitos tipos de amargura nessa vida. Umas eram boas, outras ruins. Vivia quem sabia diferenciar. E assim passaram as décadas e nenhuma briga, mágoa ou decepção foi capaz de separar as duas amigas. Compartilharam tudo. Do lugar onde viviam, dinheiro, bebida, amores e segredos. A alegria incansável de Cajú e a fome ávida de Dodô deram o tom de uma vida plena de sabores. O amargor compunha o paladar de ambos destinos. Cada um dos Carnavais, os tristes e os furiosos, os apaixonados e os exultantes, as duas eram sempre Cão, espalhando o pretume cintilante de sua festa faminta e arregalada. Correndo por dentro do sonho, Dodô buscava encontrar o quando e o porquê de Cajú, inutilmente.
De volta àquela infância afobada, Dodô lembrava de sentir seu corpo quente por dentro da Lama, a embriaguez veloz da cachaça e a vontade espiritual de converter o mundo em mangue – forças que a empurravam pelas ruas, despojada já de sua individualidade, metamorfoseada em Cão. O sangue fervendo alucinado convulsionava seu corpo em gargalhadas quando agarrava um punhado de lama, no balde de que se muniram ela e Cajú, e lançava num turista aviltado. Nas fachadas de casas, bares e barracas via-se o povo correndo de medo delas, dos Cão, e se enfiando dentro de cada buraco que o protegesse do enlameamento e alegria gerais do bloco. A sujeira era um tapete estendido que recepcionava os endiabrados com a gala que mereciam, e os Cão reinaram pela décima vez nas ruas da Redinha.
Poucos dias após sumir, Cajú apareceu no mangue, deitada de bruços na margem do Potengi, sem vida. Descobriram que deixou a Praia Bela com um sobrinho e ninguém mais a avistou depois. A polícia apontou suicídio, pulou da ponte. A imprensa ocultou o caso e pela primeira vez em 60 anos não houve Bloco dos Cão. A Redinha se amofinou naquela terça-limpa de chuva. Dodô tinha perdido a fome.
E assim foi o ano enfastiado: do lixo, das dores e da melancolia imperecível. Dodô buscava nas ruas, na praia e no mar um sussurro do sentido da morte de Cajú, suas razões, mas a terra agora era puro silêncio e o Tempo jamais permite antever seu bálsamo. Era chegado mais um carnaval e, com ele, a promessa de encontrar respostas na outra Redinha, a que vivia somente nessa época, a efêmera e mágica Redinha dos foliões. Mas a Dodô não estava ofertado o ingresso ao mundo das cores. Pelos dias a fio, bebeu, seguiu as festas, lambeu as feridas de cada lembrança, tentou catalogar amarguras. Mas sem a fome se desapossam os sabores do mundo e todo o universo é oco. Embriagada, sem dormir há dias, vagando cegamente em direção aos sons, Dodô sentiu seus pés endurecidos afundarem no toque caloroso do mangue. Ajoelhou-se para encher as mãos e, sem forças, despencou de corpo inteiro na Lama.
Engolida pouco a pouco, pôde sentir finalmente uma angústia integral da qual havia esquecido meio século antes e, dessa vez, não podia compartilhar com ninguém. Ela sabia que, até o fim dos seus dias, jamais conseguiria entender os motivos da amiga, assim como não compreendia os da mãe. Serenamente, caiu no sono.
Deitada entre o futuro e o passado, Dodô respirava no ritmo das eras, vagando para dentro e para fora de um sonho febril de realidade. Sentiu quando cada camada de areia, pedra, encanamento e concreto foi posta sobre si, depois o primeiro e o segundo tijolos e os demais. Então, coisas pesadas de aço se ergueram e paredes. Vieram pessoas, carros — elétricos — e logo havia silêncio, jardins e muitas cores ali em cima. O riso das crianças, o amor dos adultos e os empregos.
E Dodô sonhou. Longamente. Por muitos séculos. Sonhou com o dia que a desenterrassem e redescobrissem, por baixo de sua pele de Cão, em sua alma fossilizada, o tesouro perdido do Carnaval.
IGOR JESUS, 33 anos, psicólogo clínico graduado pela UFRN, onde atuou como pesquisador na temática de raça, gênero e decolonialidade. Morou a vida inteira na periferia de Natal-RN, num bairro vizinho à Redinha. “Cão” é seu trabalho inaugural como contista. É homem, cis, branco e bissexual.
As fotografias que acompanham o conto vencedor, são de autoria de VITOR CONSTANTINO, graduado em Letras Português/Espanhol pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr) (2022). Atualmente, sou mestrando em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação da mesma instituição (UNESP/FCLAr). Sou integrante do Grupo de Pesquisas em Dramaturgia, Cinema, Literatura e outras Artes – GPDC-LoA e desenvolvo pesquisas na área de Relações Intersemióticas, com foco nas relações entre litaretura e cinema.